Autor: diegobittencourt

  • Herbert Simon e o conceito de Economia da Atenção

    Herbert Simon e o conceito de Economia da Atenção

    Herbert Simon foi um célebre economista norteamericano, vencedor do prêmio nobel e um importante autor da área de administração, sendo o livro Comportamento Administrativo uma de suas principais obras.

    É tido por vezes entre os estudiosos de sua obra como uma espécie de “sociólogo matemático” – uma definição que ele próprio parecia ter inclinação a aceitar -, pelo fato de que suas tentativas de resolver problemas sociológicos tendiam sempre à demonstração lógica, à análise de dados estatísticos e principalmente a uma visão crítica a respeito do modo como os cientistas em geral lidam com o fator da informação, sendo a tecnologia da informação objeto de alguns dos seus mais importantes estudos.

    Temos por exemplo na conferência “Designing Organizations for an information-rich world”[1], de 1971, seu importante conceito de Economia da Atenção consagrado na seguinte explicação: “Uma era rica em informação provoca a escassez do que ela consome. E o que ela consome é óbvio, é a atenção de seus receptores”. (p. 40)

    Uma enorme gama de informação cria pobreza de atenção e uma necessidade de alocá-la eficientemente entre a superabundância de fontes de informação que possam vir a consumi-la.

    Ele pondera que se um sistema de informação de grande capacidade, como o computador por exemplo, vai ser parte da solução da superabundância de informação, ou parte do problema, depende da distribuição da sua atenção entre quatro classes de atividades: escutar, alocar, pensar e falar.

    Será parte da solução em uma organização se ele absorve mais informação do que produz, se ele “escuta” e “pensa” informações mais do que ele fala. (p. 42). Para citar apenas uma das muitas considerações sobre a problemática da Economia da Atenção que este estudo suscita.

    Nos dias de hoje, uma enorme gama de profissionais como cientistas de dados, publicitários, especialistas em marketing, empreendedores de uma maneira geral, podem encontrar nos estudos de Simon base conceitual para refletir sobre panoramas inteiros da era da informação como a transição que houve da web 1.0 para a 2.0, bem como da 3.0 para a iminente 4.0, além de temas como SEO (otimização para motores de busca), a otimização de desenvolvimento de aplicativos móveis, as estratégias de marketing para as redes sociais etc.

    “Em um mundo rico em conhecimento, o progresso não está na direção de ler e escrever informação ou alocá-la mais. O progresso está na direção de extrair e explorar padrões para que menos informação precise ser lida, escrita ou alocada. O progresso depende de nossa habilidade em desenvolver melhores e mais poderosos programas de pensamento para o homem e para a máquina” (p. 46-47).

    Herbert Simon

    O que você tem feito para o progresso do seu conhecimento pessoal, ou ainda daquele exercido no âmbito de sua organização ou atividade profissional?

    Referências:

    1. SIMON, Herbert. Designing Organizations for an Information-Rich-World. Balti-more, MD: The Johns Hopkins. Press, 1971. Acesso em: Dez/18
  • Ciência, Tecnologia e Sociedade

    De maneira cada vez mais frequente, há no empreendedorismo a necessidade de estudos multidisciplinares a fim de se produzir soluções inovadoras para a sociedade. A perspectiva crítica a respeito do uso da tecnologia aliado à responsabilidade com as questões sociais, que o estudante adquire em disciplinas como sociologia das organizações e gestão ambiental, conscientiza-o ainda mais desse caráter multidisciplinar do empreendedorismo, que o torna um atuante tanto teórico quanto prático, que deve buscar um olhar de um cientista preocupado com as tensões políticas e sociais de seu momento, bem como o de um produtor de tecnologia motivado a gerar riquezas.

    Para aprimorar essa busca, a dica de leitura de hoje é Ciência, Tecnologia e Sociedade — desafios da construção do conhecimento, organizado por Wanda A. M. Hoffmann[1].

    O livro é dividido em quatro partes: Educação e Informação Tecnológica, na qual se tem reflexões sobre a educação CTS e as metodologias de ensino e aprendizagem, estudos sobre comunicação e democracia digital, a estratégia dos governos FHC e Lula para o desenvolvimento do ensino superior, entre outros artigos; Gestão e Empreendedorismo, na qual há estudos sobre o modelo de gestão de parceria público-privada em hospitais na perspectiva CTS, sobre gestão de desafios (envolvendo temas como conhecimento, inovação e sustentabilidade) e sobre a importância da manutenção aeronáutica para a sociedade; Tecnologia, Ambiente e Sociedade, que aborda apontamentos para uma leitura CTS em Marx, estudos sobre as empresas de base tecnológica de São Carlos, economia solidária e cooperativa de catadores, entre outros artigos; por fim, Ciência, Sociedade e Linguagem, na qual há estudos sobre o discurso das ciências do autismo e uma análise comparativa entre o jornal nacional na tv e na internet.

    O livro é de grande importância ao empreendedor para a aquisição de novos conhecimentos, pois há apresentação de um panorama geral do campo CTS no mundo e um detalhamento, contendo diversos gráficos e dados estatísticos, sobre como este campo progride no Brasil, sem esquecer ainda que traz ao estudioso um amplo conhecimento da situação particular da cidade de São Carlos, a referida capital da tecnologia, no que concerne à distribuição das empresas de base tecnológica, às áreas de concentração das atividades de ensino e pesquisa, à implantação de tecnologias de reciclagem por cooperativas de catadores, entre outros estudos que muito podem contribuir para a visão empreendedora a respeito da cidade. Indispensável.

    Referências:

    1. HOFFMAN, Wanda Aparecida Machado (Org.). Ciência tecnologia e sociedade: desafios da construção do conhecimento. São Carlos, SP: EdUFSCar, 2011. 312 p. ISBN 9788576002321.
  • O projeto World Community Grid e as pesquisas relativas à AIDS e ao câncer

    imagem retirada de http://www.ibm.com

    Lançado em 16 de novembro de 2004, o projeto World Community Grid, da IBM, é um esforço em criar, através da computação distribuída, um supercomputador capaz de auxiliar o progresso de pesquisas de diversos campos da ciência, em especial a área da medicina, na qual se verifica importantes projetos concluídos e outros ainda em andamento.

    Pesquisa relativa à AIDS

    Há em andamento para auxiliar as pesquisas relativas à doença o projeto FightAIDS@Home, lançado em 19 de novembro de 2005. É o segundo projeto geral do World Community Grid e o primeiro a dizer respeito à pesquisa de uma doença em particular. Ainda encontra-se ativo. Neste projeto, cada computador processa uma molécula e testa como ela se comporta em relação às moléculas do vírus HIV. [1]
    O instituto Scripps Research divulgou seu primeiro paper científico revisado por pares a respeito do FightAIDS@Home em 21 de abril de 2007, cujos resultados servem à melhoria da eficiência dos cálculos envolvidos no projeto.[2]

    Pesquisa relativa ao câncer

    Atualmente há ativos para auxiliar as pesquisas relativas a essa doenças os projetos Mapping Cancer with Markers e Smash Childhood Cancer.
    O primeiro tem por objetivo identificar possíveis indicadores associados a diversos tipos de câncer e tem analisado milhões de dados relativos a amostra de tecidos de pele de milhares de pacientes saudáveis e doentes; através da comparação dos dados, os pesquisadores procuram identificar padrões de diferentes cânceres e correlacioná-los com outros diferentes resultados, incluindo a receptividade que os pacientes têm tido a diversas opções de tratamento. Esse conhecimento na prática pode ajudar a melhorar os diversos tipos de tratamentos e personalizá-los, de acordo com o perfil de genético de cada paciente, além de acelerar o processo de identificação dos indícios de câncer. O projeto tem como foco primeiramente o câncer de pulmão e depois o câncer ovariano, o de próstata e o sarcoma. [3]
    Já o segundo projeto, Smash Childhood Cancer, visa testar novos tipos de drogas para o tratamento do câncer infantil, através de experimentos virtuais que ocorrem nos computadores ou dispositivos androids dos colaboradores do projeto. Esses experimentos ajudam a identificar qual a droga que melhor pode controlar moléculas encontradas em células cancerosas. Um projeto que tem suma importância em um contexto no qual o órgão americano US Food and Drug Administration aprovou, nos últimos 20 anos, apenas um número reduzido de novas drogas para serem usadas nos tratamentos. As pesquisas relativas a novas drogas devem prosseguir, e por fazerem parte de um processo caro e desafiador, a computação distribuída do World Community Grid tem feito parte da solução para o progresso das pesquisas.[4]

    Projetos concluídos e resultados científicos

    Deve-se considerar que os projetos são considerados concluídos formalmente, já que possuem uma data de início e uma data de finalização, mas há sempre novidades e descobertas recentes de cientistas que estão ligadas aos projetos.

    • Help Fight Childhood Cancer: a missão do projeto é encontrar drogas que sejam capazes de desativar três proteínas em particular associadas ao neuroblastoma, um dos mais frequentes tumores sólidos nos infantes.[5]
    • Help Defeat Cancer: o projeto visa melhorar a habilidade dos profissionais da medicina de determinar as melhores opções de tratamentos para pacientes com canceres localizados na cabeça ou no pescoço. Houve no projeto o trabalho de identificar padrões visuais em um grande número de microconjuntos de tecido retirados de amostras de tecidos de pacientes. Estes microconjuntos de tecidos são uma ferramenta investigativa, de modo que, através dessa análise, é possível aos pesquisadores determinar o tipo específico e o estágio do câncer existente, além de investigar sistematicamente quais terapias ou combinação de tratamentos podem ser mais efetivas para cada tipo de câncer, tendo como base resultados já existentes de pacientes.[6]

    Resultados científicos:

    • Em fevereiro de 2010, os cientistas dos projeto FightAIDS@Home anunciaram que descobriram dois componentes que fazem potencialmente uma nova classe de drogas possíveis para combater a AIDS. Elas melhorariam os tratamentos existentes, além de desacelerar o processo de resistência à droga do vírus.[7]
    • Em fevereiro de 2014, os cientistas ligados ao projeto Help Fight Childhood Cancer anunciaram a descoberta de sete componentes que destroem células do câncer neuroblastoma sem nenhum efeito colateral aparente[8]. Uma descoberta feita com a colaboração dos voluntários do World Community Grid; verificar tais benefícios efetivos para os tratamentos torna-se um motivo a mais para encorajar qualquer pessoa a doar o processamento de seu computador para o projeto.

    Como colaborar com World Community Grid:

    Acesse o site http://worldcommunitygrid.org/ e registre-se. Após o registro, haverá para usuários de Windows e Android opções para download do programa. Para os usuários de Linux, tanto Red Hat e outras distribuições baseadas no Fedora como Ubuntu e outras baseadas no Debian, há instruções detalhadas de como instalar o programa via terminal. A vantagem evidente de colaborar com o projeto é que ele traz benefícios concretos para a ciência e não afeta em absolutamente nada o desempenho do computador ou smartphone android, já que o programa apenas faz uso da capacidade ociosa do processamento.

    Referências:

    1. “FightAIDS@Home” Research. World Community Grid. Acesso em: mai/2018
    2. “Analysis of HIV Wild-Type and Mutant Structures via in Silico Docking against Diverse Ligand Libraries”. American Chemical Society. Acesso em: mai/2018
    3. Mapping Cancer with Markers: project overview. World Community Grid. Acesso em: mai/2018.
    4. Smash Childhood Cancer: project overview (em inglês). World Community Grid. Acesso em: mai/2018
    5. Help Fight Childhood Cancer: project overview (em inglês). World Community Grid. Acesso em: mai/2018
    6. Help Defeat Cancer: project overview (em inglês). Help Defeat Cancer Project – Dr. David Foran, principal investigator. Acesso em: mai/2018
    7. ONO, Mika. TSRI – News & Views. Scientist Finds Two Compounds that Lay the Foundation for a New Class of AIDS Drug (em inglês). Scripps.edu. Acesso em: mai/2018
    8. Breakthrough in the fight against childhood cancer, 20 de fevereiro de 2014 (em inglês). World Community Grid. Acesso em: mai/2018
  • A importância do fator da informação em ambientes virtuais da atualidade

    Desenho Cartoon de Milton Santos, por Romeiro.
    Desenho Cartoon de Milton Santos, por Romeiro.

    O trabalho relativamente novo (2013) do consagrado geógrafo Milton Santos traz consistentes reflexões sobre o processo da globalização, tratando do modo como ela tem sido produzida, da perversidade que envolve a tirania da informação e do dinheiro, que resulta em competitividade desprovida de compaixão, em consumo aliado a seu despotismo e na confusão dos espíritos, dentre outros termos empregados pelo autor com precisão cirúrgica, como não poderia ser diferente, já que discursou com autoridade e desprezou o cumprimento de certas obrigações acadêmicas rituais ou, em suas palavras, dispensou o “cerimonial de referências”.

    Não obstante, em meio a suas críticas ferozes aos atores sociais que a produzem na perversidade, apresenta uma possibilidade efetiva de construção de um outro mundo, através de uma globalização humanizada, pois argumenta que no cenário atual há bases materiais como a unicidade da técnica, a convergência dos momentos (o conhecimento do “outro” que, em ambientes virtuais, verifica-se principalmente nas redes sociais) e o conhecimento do planeta. No plano empírico, sustenta o autor, há fatos indicativos da emergência de uma nova história: observa-se enorme mistura de povos, raças, culturas e gostos em todos os continentes; e, graças aos progressos da informação, tem-se uma maior gama de filosofias, não mais estando o racionalismo europeu no centro.

    Todavia, observados esses fatos e ainda encontrando-se a humanidade em um período técnico-científico tal que é possível produzir materiais em laboratório como verdadeiros frutos da inteligência humana, capaz de conceber com precisão os materiais antes de sua elaboração, a dupla tirania supramencionada do dinheiro e da informação continuam demasiado poderosas, criando enganos como a “aldeia global“, a aparente ideia de que a sociedade está razoavelmente informada e um novo ethos, ou seja, um novo conjunto de costumes fortemente influenciado pela competitividade, sugerida pela produção e pelo consumo em seus aspectos negativos, o que torna-se fonte de novos totalitarismos.

    Pode-se perguntar: qual o verdadeiro peso desses fatores? O que se dizer precisamente sobre o fator da informação? Há realmente possibilidade de totalitarismos vindos de atores sociais que detêm enorme poder?

    Para não estender aquilo que não se propõe a ser uma exposição cabal a respeito do assunto, mas antes um breve estudo que suscita reflexões e perguntas, pode-se verificar quão sérias são suas preocupações relativas à informação no contexto da iminente web 4.0, por exemplo — caracterizada pelo escritor e orador de negócios americano Seth Godin em 2007 como um ambiente que envolve um cliente de e-mail inteligente a respeito do que o usuário e sua rede de colegas fazem, o uso daquilo que se conhece hoje como smartphone, um processador de textos que relaciona o que o usuário escreve ao que consta na web de informações a respeito e redes que eliminem o anonimato onde quer que se esteja[2] —, no qual não faltam casos de gigantes das redes sociais que exercem tal tirania descrita pelo geógrafo, a ponto de muitas vezes a própria crítica especializada corrente ser incapaz de acompanhar e descrever.

    Esta, as mais das vezes, limita-se apenas a relatar o aumento das funcionalidades, ano após ano, que concorrem para uma realíssima interatividade que aparenta tornar as pessoas cada vez mais próximas através de tecnologias novas, mas pouco aprofunda-se em demonstrar como a utilização de informações dos usuários para gerar publicidade vem sendo prática usual das redes sociais de maneira pouco transparente, o que tem sido objeto de estudo apenas de reduzido número de pesquisadores sobre segurança on-line, como se vê na matéria da Ana Luiza Tieghi para a revista Espaço Aberto[3].

    Santos explica que um dado essencial a respeito do consumo é que a produção do consumidor, hoje, precede à produção dos bens e serviços; vê-se que esta explicação é exata quando se examina as práticas invasivas das gigantes redes sociais, para não citar as empresas menores que espelham-se nas redes sociais quanto a forma de conhecer os hábitos dos consumidores; posto isto, invevitavelmente percebe-se que o fator da informação, além do dinheiro que quase sempre relaciona-se a ele, exige uma visão supraempreendedora ao estudioso mais sério dos caminhos do empreendedorismo, vez que nem sempre encontra em seu campo tais preocupações que não faltam a um cientista social ou a pesquisadores da tecnologia com sérias preocupações éticas.

    Vale então nesse cenário, aos dispostos ao exame mais grave, mais conhecimento, reflexões e questionamentos sobre como as informações têm sido usadas nas empresas, pequenas ou grandes, a fim de tornar claro se elas têm servido à construção de um outro mundo em que se vê humanização ou apenas a um aumento de competitividade através da produção de consumidores de forma demasiadamente antiética.

    Referências:

    1. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 23. ed. Rio de Janeiro: Record, 2013. 174 p. ISBN 978-85-01-05878-2.

    2. GODIN, Seth. Web 4. Seth’s Blog, 19 de janeiro de 2007. Disponível em: <http://sethgodin.typepad.com/seths_blog/2007/01/web4.html>. Acesso em: mai/18.

    3. TIEGHI, Ana Luiza. Existe privacidade no mundo virtual?. Revista Espaço Aberto USP, edição 159 – abril 2014 – ano XIII. Disponível em: <http://www.usp.br/espacoaberto/?materia=existe-privacidade-no-mundo-virtual-2>. Acesso em: mai/18.

  • Empreendedorismo à luz da Sociologia do Conhecimento

    Sociologia do Conhecimento surge na primeira metade do século XX e, na condição de ramo da sociologia, procura teorizar e avaliar com a isenção e responsabilidade cultural comum aos sociólogos a respeito dos diversos campos do conhecimento, em facetas sociais que não podem escapar a um exame crítico competente.

    Problema da Sociologia do Conhecimento

    Mannheim, discorrendo acerca do problema de uma sociologia do conhecimento, reforça a popular constatação de que nada pode ser intelectualmente um problema se não tiver sido, antes, um problema da vida prática; cumpre, então, não apenas observar os problemas teóricos de um dado momento, mas levar em conta na mesma medida os problemas simultâneos da vida prática. Tal campo de visão, em resumo, constituirá para o sociólogo sua constelação de problemas a serem solucionados — termo inicialmente surgido na astrologia e adaptado para a disciplina sociológica.

    Necessita-se, segundo o autor, não apenas catalogar as correntes de pensamento existentes e seus rumos, mas de que esta sociologia faça análise estrutural radical dos problemas de uma determinada época, sem deixar de levar em conta as tensões em que o cientista vive e como estas influenciam consciente ou inconscientemente seu pensamento (p. 16).
    Ainda esforçando-se na problemática desta disciplina, traz à tona o fato de que, se em tempos idos, os indivíduos transcendiam o pensamento nas revelações religiosas, nos êxtases etc., agora a consciência foca-se na esfera histórica e social, tendo nela a primazia o fator econômico (p. 23).

    Assinala enfim outros comentários razoáveis oriundos do olhar sociológico, como o fato de observadores inclinados à posição de pensamento de extrema esquerda ou extrema direita serem incapazes de pensar rotas históricas atravessadas por outros grupos, assumindo a posição implausível de conceber uma história das ideias sem a mais mínima intercomunicação de correntes diversas (p. 29).

    Os pontos de vista filosófico-sistemáticos para a elaboração de uma sociologia do conhecimento que são considerados mais importantes por ele são:

    Auguste Comte, formulador da doutrina positivista.
    Auguste Comte, formulador da doutrina positivista.

    a) positivismo — corrente surgida no século XIX, idealizada principalmente por Auguste Comte e John Stuart Mill, que afirma ser o conhecimento científico, comprovado através de métodos válidos, o único verdadeiro;

    Immanuel Kant, formulador do apriorismo.
    Immanuel Kant, formulador do apriorismo.

    b) apriorismo formal — linha da pensamento que, sendo uma mediação entre racionalismo e empirismo, também considera a experiência e o pensamento como fontes de conhecimento, todavia também com elementos a priori, ou seja, independentes da experiência;

    Edmund Husserl, fundador da fenomenologia.
    Edmund Husserl, fundador da fenomenologia.

    c) apriorismo material — ponto de vista que é associado à escola fenomenológica, que afirma a importância dos fenômenos da consciência humana e seu estudo;

    Wilhelm Dilthey, conceituador do historicismo.
    Wilhelm Dilthey, conceituador do historicismo.

    d) historicismo — corrente que busca a historização de todo pensamento sobre os seres humanos, suas culturas e seus valores, ainda afirmando que o panorama do mundo humano, tal como se apresenta em determinado momento, é sempre produto de processos históricos de formação, que podem ser reconstruídos pelo pensamento humano e tornarem-se inteligíveis.

    Breve exposição da Sociologia do Conhecimento de Robert K. Merton

    Robert K. Merton, expositor da Sociologia do Conhecimento.
    Robert K. Merton, expositor da Sociologia do Conhecimento.

    Define inicialmente a palavra “conhecimento” relacionada a uma gama de produtos culturais, como ideias, ideologias, crenças jurídicas e éticas, filosofia, ciência, tecnologia etc. Faz lembrar os precursores da sociologia do conhecimento, como Ernest Gruenwald, seu primeiro historiador, e Whitehead, que mostra o espírito da disciplina ao constatar a diferença considerável entre se aproximar de uma teoria e captar-lhe a aplicação exata, pensamento que a história da ciência tem demonstrado (p. 81-82).

    Paradigmas para a Sociologia do Conhecimento

    Na primeira pergunta “Onde se situam as bases existenciais dos produtos mentais?“, coloca bases sociais, relativas à posição social, classe, geração, papel ocupacional, modo de produção, estruturas de grupo (universidade, burocracia, academias, seitas, partido político), situação histórica, estrutura de poder etc.

    Também para esta pergunta são colocadas bases como valores: Ethos — termo que designa conjunto de traços e modos de comportamento que constituem o caráter ou identidade de uma pessoa ou coletividade[2] e que, no contexto sociológico, pode resumir-se como de síntese da identidade de um povo —, “clima de opinião”, Volksgeist — o espírito do povo, uma espécie de consciência popular que, segundo a Escola Histórica, seria anterior e superior ao Estado[3] —, Zeitgeist — termo que se refere ao clima intelectual e cultural de dada época, vem do alemão Zeit ‘tempo’ + Geist ‘espírito’[4] —, o tipo de cultura que, assim como valores, também é uma das constituintes etc.

    A segunda pergunta que coloca é “Quais são os produtos mentais submetidos à análise sociológica?“, à qual sugere esferas de pensamento como crenças morais, ideologias, ideias, categorias de pensamento, filosofia e crenças religiosas, normas sociais etc., e aspectos analisados como sua seleção (focos de atenção), nível de abstração, pressupostos, conteúdos conceptuais etc.

    A terceira pergunta do paradigma é “Como se acham os produtos mentais relacionados às bases existenciais?“, para a qual postula relações causais ou funcionais como determinação, causa, correspondência, condição necessária, interdependência funcional etc; relações simbólicas, expressivas ou orgânicas como consistência, harmonia, coerência, unidade, congruência, compatibilidade, expressão, percepção, expressão simbólica, identidades estruturais etc; termos ambíguos para designar as relações: correspondência, reflexos, ligados a, em estreita conexão com etc.

    A quarta pergunta: “Por quê? Funções latentes e manifestas atribuídas a estes produtos mentais existencialmente condicionados“, à qual nomeia como atribuições manutenção de poder, promoção de estabilidade, facilitação de orientação ou exploração, ocultação de relações sociais efetivas, fornecimento de motivações, canalização de comportamentos etc.

    Por fim, a quinta e última pergunta: “Quando se evidenciam as relações atribuídas entre a base social e o conhecimento?“, à qual coloca teorias historicistas, limitadas a sociedades ou culturas específicas e teorias analíticas.

    Em que sentido poderia o empreendedor, sendo estudante de administração, economia, áreas afins, avançar nessa dimensão da sociologia, de modo a comprender-lhe os paradigmas?

    Pode-se refletir de várias formas a respeito desta questão. Talvez de modo a compreender que seu empreendimento, qualquer que seja o tipo de atuação, não poderá negligenciar um exame crítico de prisma sociológico. Por conseguinte, não escapa também a ele entender e fazer a análise estrutural dos problemas do momento em que vive, tal como postula Mannheim, em especial aqueles que se manifestarão nos ambientes externo e interno da organização em que atua, principalmente o primeiro, que tende sempre a ser menos controlável do que compreensível. Poderá conscientizar-se melhor como cientista, atuante teórico e prático, que entende que todas as tensões de seu momento histórico, todas as crises políticas e sociais do ambiente externo terão reflexos no meio imediato em que trabalha, de forma que será um agente solucionador dos problemas práticos que lhe aparecem simultaneamente, no momento em que levanta questões teóricas e orienta-se intelectualmente.

    Todas as cinco questões colocadas no paradigma por Merton são, nesse sentido, de inestimável valia, posto que reconhece-se facilmente que as bases sociais e culturais como posição social, modo de produção, estruturas de grupo, estrutura de poder, valores, ethos etc., devem ser constante e criticamente examinadas pelo empreendedor.

    Desnecessário dizer que os pontos de vista filosóficos-sistemáticos mencionados por Mannheim têm grande relevância em diversos âmbitos do conhecimento na atualidade, publica-se e debate-se abundantemente a respeito deles, e que a aproximação do empreendedor dessas correntes, conforme suas possibilidades, é indispensável para que possa compreender a gama de produtos culturais — ideias, possíveis ideologias, crenças éticas, a filosofia, tecnologia etc. — de sua própria área atuação que carrega em sua Missão, Visão e Vaores.

    O que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade.

    — Karl Mannheim

    Referências:

    1. MANNHEIM, Karl; MILLS, Charles Wright; MERTON, Robert K. Sociologia do conhecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. 143p.
    2. Diccionario de la lengua española: ethos. Real Academia Española. Acesso: abr/2018.
    3. MALTEZ, Jose Adelino. Repertório Português de Ciência Política. Edição electrônica, 2004. Acesso: abr/2018.
    4. Learner’s Dictionares: zeitgeist. Oxford. Acesso: abr/2018.
  • Ubuntu e suas aplicações como fatores de competitividade para o Microempreendedor Individual

    O Brasil é um país que hoje ultrapassa o número de 9,5 milhões de empresas de todos os setores e portes, dentre as quais mais de 6,5 milhões são MEIs – Microempreendedores Individuais[1]. Malgrado o fato de todos os empreendedores, MEIs ou não, enfrentarem todas as dificuldades conhecidas do País como altos impostos acompanhados de um precário retorno do governo na qualidade dos serviços públicos, fatores de grande influência no encerramento de atividades de muitas empresas, há quem nesse cenário consiga identificar oportunidades e aproveitar criativamente as facilidades de ser MEI, chegando inclusive a se tornar egresso de programas sociais do governo, cujos benefícios não são perdidos automaticamente quando a pessoa se formaliza como MEI, mas somente se for comprovado aumento da renda familiar acima do limite dos benefícios[2].

    De fato, alguns dados a respeito do MEI são otimistas. Lançado oficialmente o novo Portal do Empreendedor no dia 05 de outubro de 2009[3], alcançou, em apenas quatro anos, 3.452.649 optantes (dados do dia 05.10.2013), vindos de todos os estados[4], número que na presente data, fevereiro de 2018, praticamente dobrou. Tal panorama relativamente otimista pode ser explicado por uma reduzida carga tributária (47,70 por mês + taxa de R$5,00 para Prestadores de Serviço ou R$1,00 para Comércio e Indústria[5]), acesso a crédito fácil e barato oferecido por bancos públicos, além de benefícios assegurados como auxílio-doença, licença-maternidade, aposentadoria e a chance de legar pensão para familiares.

    Nessas condições não faltaram casos de sucesso, como o da artesã acreana Rodney Paiva Ramos que, tendo frequentado cursos para capacitação em artesanato e se tornado MEI em 2012, chegou a receber um selo de excelência da Unesco com o seu trabalho “Cores da Mata”[6]; ou Ineide Pereira da Costa, de Teresina-PI, que inovou com seu empreendimento Mídia & Eventos, atuando nas áreas de fotografia, filmagem, sonorização e afins. Tendo sido babá e faxineira, passou a atuar com tecnologia, após uma experiência como responsável por eventos de uma faculdade. Dos segmentos em que atua, tem se destacado na Fotografia. Ganhou dois prêmios Sebrae Mulher de Negócios, uma vez em 2012 e outra em 2016[7].

    Em tal cenário positivo, o artigo apresenta a notável distribuição Linux Ubuntu e suas aplicações como fatores de competitividade para MEIs, seja o negócio aparentemente pouco dependente da tecnologia da informação, como o da artesã Rodney, seja em setores altamente dependentes de um sistema e ferramentas de escritório robustas, como Mídia & Eventos, de Ineide. As razões pelas quais essas ferramentas são sempre bem vindas serão vistas abaixo.

    1. Linux Ubuntu

    Lançado em outubro de 2004, é consagrado pela comunidade do software livre como um dos sistemas Linux de maior acessibilidade, sendo notável a facilidade de uso que qualquer pessoa pode experimentar, independente de sua nacionalidade, nível de conhecimento ou limitações físicas. Daí o nome Ubuntu, que significa “sou o que sou pelo o que nós somos”.

    Linux Ubuntu

    Como se pode notar, uma pessoa habituada a usar Windows 7, 8 ou mesmo o 10 não terá tantas dificuldades em usar o desktop, navegar por diretórios diversos e organizar suas pastas. A única dificuldade que o iniciante pode encontrar é instalar certos aplicativos via linha de comando (terminal). Porém, o sistema conta com a Ubuntu Software, onde há inúmeros aplicativos prontos para serem baixados e instalados sem a necessidade do terminal.

    2. Libre Office

     

    Lançado em 2010, acompanha diversas distribuições Linux. É sem dúvida um grande susbtituto do Microsoft Office, do qual o empreendedor seguramente pode fazer uso em seu negócio. Possui algumas desvantagens como, por exemplo, ser mais rudimentar do que as versões modernas do Office no que concerne ao design de tabelas e gráficos diversos, e mesmo no quesito formatação. Um acadêmico que trabalha com artigos baseados em normas ABNT provavelmente fará a formatação com mais dificuldade no Libre Office, que todavia não é de todo impossível. A conversão de um documento rico em formatação de odt para doc (e vice-versa) também geralmente causa algumas incompatibilidades. Ainda sim, dada a gratuidade, é uma excelente alternativa.

    3. Planner

     

    Para garantir fatores como racionalidade e previsibilidade nas decisões, bem como uma atitude empreendedora que não perca de vista a importância de ser eficiente e eficaz, dois conceitos que, segundo o consenso das discussões administrativas atuais, tratam respectivamente da ideia de atingir excelência no processo e da excelência no cumprimento dos fins da organização, é indispensável tornar-se consciente da suma importância da Gestão de Projetos. E o Planner é para o Ubuntu o que o Project é para o Microsoft Office, se bem que, assim como no caso do Libre Office, um pouco mais limitado, principalmente no que diz respeito à usabilidade e intuitividade que a ferramenta proporciona. Ainda assim, o empreendedor pode elaborar suas tarefas e projetos de maneira bastante satisfatória. Simplesmente essencial.

    4. Kdenlive

    Kdenlive software

    A ampla gama de recursos de manipulação de áudio e, principalmente, de vídeo, colocam o aplicativo em um patamar superior a um editor de vídeo básico do Windows como o Movie Maker, sendo o Kdenlive um editor intermediário. Se ele pode satisfatoriamente atender até a necessidade básica de um profissional de cinema que queira fazer um curta-metragem ou de um publicitário que queira fazer um vídeo, quanto mais a de um empreendedor MEI, que, com esse aplicativo, poderá as mais das vezes, com o possível auxílio de um colaborador, editar vídeos simples de maneira profissional para divulgar nas redes sociais seu produto ou serviço. É uma tarefa não precisa ser terceirizada e que, com um pouco de treinamento, pode caber a um colaborador operacional da empresa.

    5. GIMP

    GIMP
     

    Criado em 1996, esse software livre consagrou-se como uma competitiva alternativa ao Adobe Photoshop, sendo suas principais funções a criação e a edição de imagens. Secundariamente, é software de desenho vetorial básico. É perfeitamente possível que um empreendedor MEI o utilize para criar seu logo para sua empresa, sem precisar arcar com custos da terceirização do serviço. Inicialmente, poderá se deparar com suas vagas noções a respeito de design e pesquisar imagens de símbolos e ícones para elaborar seu logo. Mas deve-se atentar ao fato de que muitas dessas imagens possuem direitos autorais, de modo que devem servir apenas de inspiração para a criação do logo, sendo descartadas assim que o empreendedor tenha criado seu próprio ícone e símbolo. O autor insiste que o empreendedor incipiente pode ser capaz, com algumas horas de uso, de ter uma ideia razoável de logo e o encoraja a criá-lo após ter elaborado um plano de negócios de um estúdio musical como parte do cumprimento da grade do curso de Gestão Empresarial da Faculdade de Tecnologia de São Carlos, onde pôde concluir em seus estudos que o GIMP, bem como o anteriormente mencionado Kdenlive e outros aplicativos livres constituem grandes oportunidades de produtividade e redução de custos.

    6. OpenBravo

    Captura de tela do site oficial da empresa

    Lançado em 2001, é um ERP Open Source (código aberto) que oferece a possibilidade do empreendedor, por conta, customizá-lo gratuitamente ou terceirizando o serviço. Há ainda a opção de adquirir os próprios planos da empresa Open Bravo S.L. Um plano profissional básico, para cinco usuários, custa U$D 873 dólares (cerca de R$2800). Talvez não seja o ERP mais acessível para o empreendedor de pequenos e médios negócios, e menos ainda esse plano básico se adequa às necessidades de um MEI, mas ele é digno de nota por existir a opção de customizá-lo gratuitamente ou terceirizando o serviço, procurando um profissional que faça a implementação a um preço justo e acessível.

    Comparação de preços – softwares livres/pagos

    Softwares
    Preço
    Software
    Preço
    Ubuntu
    Windows 10 Pro
    R$809,99[8]
    Libre Office
    Office 2016 Pro
    R$1699,00[9]
    Planner
    (Project incluso no Office)
    Kdenlive
    Adobe Premiere Pro
    R$852,00*[10]
    GIMP
    Adobe Photoshop
    R$852,00*
     
     
     
     
    Custo Total
     
    R$4212,99

    Considerações finais

    Deve-se ter em evidência que, podendo o empreendedor MEI ter um rendimento de até 80 mil por ano, a alternativa de software pago, no valor R$4212,99, possui um custo razoável para o MEI iniciante. Ainda é digno de nota que os softwares Adobe, marcados com asterisco (*), são pagos anualmente, então seria um custo inicial de R$4212,99 + R$1704 (custo fixo) ao ano.

    É um valor que pode fazer falta para suprir as pequenas dificuldades diárias do empreendimento. O empreendedor, é claro, pode estudar a alternativa de software pago e chegar à conclusão de que ela é mais viável através de inúmeros argumentos como, por exemplo, o fato de que os colaboradores sentem-se mais à vontade em usar, ou serem treinados para usar, os softwares tradicionais do mercado.

    Ressalte-se todavia que o empreendedor que domine os softwares tradicionais pagos não teria a menor dificuldade em treinar os colaboradores para o usar os softwares livres, tendo como material de apoio suas respectivas documentações. Ainda mais importante do que isso, é que o encorajamento do uso progressivo de software livre constitui, para o empreendedor e para os colaboradores, uma grande fonte de possibilidades de expansão de habilidades e conhecimentos.

    Referências:

    1. Estatísticas. Portal do Empreendedor — MEI. Acesso em: abr/18.
    2. Situações que permitem a formalização como MEI, com ressalvas. Portal do Empreendedor — MEI. Acesso em: abr/18.
    3. Sobre o Portal. Portal do Empreendedor – MEI. Acesso em: abr/18.
    4. Ver o mesmo link do item 1.
    5. Dúvidas Frequentes. Portal do Empreendedor — MEI. Acesso em: abr/18.
    6. Brava gente — Rodney, a premiada senhora dos balangandãs. 08 de agosto de 2012; atualizado em 01 de novembro de 2016. Notícias do Acre. Acesso em: abr/18.
    7. Quem somos. Mídia & Eventos. Acesso em: abr/18.
    8. Comprar Windows 10 Pro. Microsoft Store pt-BR. Acesso em: abr/18.
    9. Microsoft Office Professional 2016 – Todos os Aplicativos em 1 PC. Microsoft Stor pt-BR. Acesso em: abr/18.
    10. Preços e planos de associação à Creative Cloud. Adobe Creative Cloud. Acesso em: abr/18.